O relato da ressurreição que encontramos em João 20.1-18 ressalta em tons vividos o contraste entre a atitude de Maria Madalena e a dos apóstolos diante das primeiras evidências deste grande acontecimento. É marcante desde o início do texto a postura diferenciada de homens e mulheres logo após a morte do seu amado Mestre.
Para começar, enquanto os apóstolos dormiam (que outra coisa melhor poderiam fazer, uma vez que Jesus estava morto e só havia um cadáver no sepulcro?), de madrugada, ainda escuro, Maria Madalena foi ao sepulcro (de acordo com os relatos dos outros evangelhos, outras mulheres a acompanharam, mas João queria focalizar nossas atenções em Maria Madalena). O que ela foi fazer lá? Jesus já tinha morrido! Será que ela tinha mais fé que os apóstolos e queria verificar se ele havia ressuscitado? Não. Os evangelhos tornam bem claro que tanto as mulheres quanto os discípulos não esperavam a ressurreição (Lc 24.4,5). Ninguém tinha entendido as palavras de Jesus sobre este assunto. O propósito de Maria era ungir o corpo de Jesus com especiarias num último gesto de amor (Lc 24.1).
Vemos então que o que levou uma mulher a estar na posição estratégica para receber a maior revelação profética de todos os tempos não foi uma grande formação teológica e sim uma paixão cega, quase irracional, por Jesus. Durante todo o resto do texto, vemos a manifestação desta paixão na vida de Maria. Sua primeira reação ao ver que o sepulcro estava aberto e que o corpo de Jesus não estava mais lá foi de desespero! Correu para avisar Pedro e João e vemos nas suas palavras a angústia de não saber onde tinham ido parar os restos mortais do seu Senhor: “Tiraram do sepulcro o Senhor, e não sabemos onde o puseram” (Jo 20.2).
Pedro e João correram para o sepulcro e chegando lá verificaram detalhadamente a situação. Chegaram a notar a posição exata dos panos de linho e que o lenço que estivera sobre a cabeça de Jesus se encontrava enrolado cuidadosamente num lugar à parte, separado dos outros panos. Veja bem a atitude masculina, pragmática e científica. Estes detalhes são importantes pois servem como provas objetivas e concretas da ressurreição de Jesus. São fatos que podem fortalecer nossa fé. Mas o texto diz que mesmo diante destas evidências “ainda não entendiam a Escritura, que era necessário que ele ressurgisse dentre os mortos” (Jo 20.9).
O que fizeram em seguida? Voltaram para casa (Jo 20.10). O que mais poderiam fazer?
Mas Maria não se conformava. Para ela a opção de voltar para casa não existia. O problema dela não era teológico. Ela estava ferida de amor, profundamente angustiada.
“Maria, porém, estava em pé, diante do sepulcro a chorar. Enquanto chorava, abaixou- se a olhar para dentro do sepulcro, e viu dois anjos vestidos de branco sentados onde jazera o corpo de Jesus, um à cabeceira e outro aos pés. E perguntaram-lhe eles: Mulher, por que choras?
Respondeu-lhes: Porque tiraram o meu Senhor, e não sei onde o puseram” (Jo 20.11-13). Ela estava tão transtornada emocionalmente e preocupada com o destino do corpo de Jesus que nem a manifestação de dois anjos chamou sua atenção! Quantos de nós ignoraríamos o aparecimento de um anjo, quanto mais de dois? Ela só queria informação. Primeiro tinha recorrido aos apóstolos, mas não adiantara. Depois falou com os anjos e nem esperou resposta.
“Ao dizer isso, voltou-se para trás, e viu a Jesus ali em pé, mas não sabia que era Jesus” (Jo 20.14). Agora não reconhece o próprio Jesus! “Perguntou-lhe Jesus: Mulher, por que choras? A quem procuras? Ela, julgando que fosse o jardineiro, respondeu-lhe: Senhor, se tu o levaste, dize-me onde o puseste e eu o levarei.” (Jo 20.15). Nem apóstolos, nem anjos, nem o próprio Jesus conseguiram acalmá-la! Ela queria uma coisa só: saber onde o corpo de Jesus estava e levá-lo consigo. A incredulidade dos apóstolos se manifestava numa certa tristeza, decepção e indiferença fria. A incredulidade de Maria numa paixão cega, angustiante e perturbadora.
Agora chegamos ao ponto climático do drama: “Disse-lhe Jesus: Maria! Ela, virando-se, disse-lhe em hebraico: Raboni!”—que quer dizer, Mestre” (Jo 20.16). Simplesmente ao dizer o seu nome, Jesus conseguiu instantaneamente atravessar toda a sua cegueira e pela primeira vez um ser humano viu o Cristo ressurreto! Que momento cósmico! Que privilégio indescritível!
Antes de morrer, Jesus havia dito aos discípulos que ressuscitaria e que apareceria a eles na Galiléia (Mt 28.7,10,16; Mc 16.7). Apesar de Deus ser onisciente e saber tudo que acontecerá, sua maneira de agir é peculiar. Tudo indica que o plano não era aparecer a uma mulher primeiro e sim aos apóstolos, e não em Jerusalém mas na Galiléia. Mas as reações humanas podem produzir reações divinas e mudar o desenrolar do “script”, não afetando, entretanto, o desfecho final. De fato, em João 21 vemos uma manifestação do Cristo ressurreto aos discípulos junto ao Mar da Galiléia, mas a causa parece ter sido uma recaída de Pedro ao tentar sair do ministério e voltar à pescaria. De qualquer forma, parece duvidoso que os discípulos iriam para Galiléia encontrar-se com Jesus como ele os havia instruído, pois nem acreditavam na sua ressurreição!
Mas o argumento mais forte para a mudança do roteiro planejado foi a atitude desesperada e inconsolável de Maria Madalena. Ela não se deixava ser confortada. Os anjos lhe perguntaram: Por que choras? e Jesus perguntou: Por que choras? mas ela não podia ser consolada. Diante de tal determinação e amor, Deus teve de mudar o roteiro e aparecer a ela! Deus tem planos, mas quem vai se interessar por esses planos a ponto de perder sono, perder interesse em discussões teológicas, projetos interessantes e visões de anjos e buscar com fome e sede insaciáveis simplesmente estar junto do seu Senhor e ouvir sua voz? Quando Deus encontra pessoas assim, ele as encaixa no seu drama, pois foi para conseguir esse tipo de amor e dedicação que ele criou o universo!
“Disse-lhe Jesus: Deixa de me tocar, porque ainda não subi ao Pai; mas vai a meus irmãos e dize-lhes que eu subo para meu Pai e vosso Pai, meu Deus e vosso Deus. E foi Maria Madalena anunciar aos discípulos: Vi o Senhor! — e que ele lhe dissera estas coisas” (Jo 20.17,18). Através desse encontro com o Cristo ressurreto, Maria tornou-se a primeira testemunha da ressurreição! Alguém disse que como “apóstolo” significa “enviado”, ela tornou-se uma “apóstola” para os “apóstolos”! Ela foi enviada pelo Cristo ressurreto para anunciar o evangelho aos apóstolos! Que honra! O único problema foi que eles não acreditaram! Ela anunciou mas seus ouvintes continuaram incrédulos! Dá para acreditar?! (Mc 16.9-14; Lc 24.10,11).
Trecho retirado da revista "Impacto", Editorial: 15. Para ler o artigo completo "O papel da mulher no plano cósmico de Deus", acesse: https://www.revistaimpacto.com.br/o-papel-da-mulher-no-plano-cosmico-de-deus
Paz & Graça,
Priscila Grazielle

Nenhum comentário:
Postar um comentário