Não devemos obedecer incondicionalmente à voz de Eros quando ele fala como um deus. Nem nos cabe ignorar ou tentar negar a qualidade divina. Este amor é real e verdadeiramente igual ao próprio Amor. Existe nele uma legítima aproximação de Deus (por semelhança); mas não, nem necessariamente, uma proximidade de Abordagem. [...]
Eros, porém, honrado sem reservas e obedecido incondicionalmente, torna-se um demônio. E é justamente assim que ele exige ser honrado e obedecido. Divinamente indiferente aos nossos interesses pessoais, ele é também diabolicamente rebelde a todas as exigências de Deus ou do homem que lhe forem contrárias.
[...] “No amor”, temos a nossa própria “lei”, uma religião só nossa, nosso próprio deus. Onde um Eros real se faz presente, a resistência às suas ordens representa uma apostasia, e o que são na verdade tentações (pelo padrão cristão) falam com a voz de deveres -’ deveres quase religiosos, atos de zelo piedoso para com o Amor.
Ele constrói sua própria religião à volta dos amantes. Benjamim Constant notou como o amor cria para eles, em poucas semanas ou meses, um passado conjunto que lhes parece imemorial. Recorrem continuamente ao mesmo com espanto e reverência, como os salmistas se reportam à história de Israel. Trata-se de fato do Velho Testamento da religião do Amor; o registro dos juízos e misericórdias do amor em relação aos seus escolhidos se compara ao momento em que eles souberam pela primeira vez que eram amantes. Depois disso, começa o seu Novo Testamento. Acham-se agora sob uma nova lei, sob o que corresponde à Graça nesta religião. São novas criaturas, O “espírito” de Eros sobrepõe-se a todas as leis, e eles não devem “entristecê-lo”.
Esse espírito parece sancionar toda espécie de atos que não teriam ousado cometer de outro modo. Não estou querendo dizer apenas, ou principalmente, atos contra a castidade; pois podem ser também atos de injustiça ou impiedade contra o mundo exterior. Parecerão provas de piedade e zelo para com Eros. O casal pode dizer um para o outro num estado de espírito quase sacrifical: “Foi por amor que negligenciei meus pais - deixei meus filhos - enganei meu cônjuge - abandonei meu amigo na hora de maior necessidade”. Essas razões na lei do amor passaram de todo. O discípulo pode até chegar a sentir um mérito especial nesses sacrifícios; pois que oferta mais valiosa pode ser depositada no altar do que a própria consciência?
E o tempo todo a pilhéria trágica é que este Eros cuja voz parece falar do reino eterno não é, ele mesmo, nem sequer necessariamente permanente, pois notoriamente é o mais mortal de nossos amores. O mundo ressoa com as queixas sobre a sua volubilidade. O que confunde é a combinação desta inconstância com seus protestos de permanência. Estar amando é tanto pretender como prometer fidelidade por toda a vida. O amor faz juramentos não solicitados, não podendo ser impedido de fazê-los. “Serei sempre fiel” são quase as primeiras palavras que profere. Não com hipocrisia, mas sinceramente. Nenhuma experiência irá curá-lo dessa ilusão.
Todos ouvimos falar de pessoas que se apaixonam repetidamente; sinceramente convencidas a cada tentativa que “desta vez é para sempre”, que sua busca terminou, que encontraram seu verdadeiro amor e que serão fiéis até a morte.
Eros porém num certo sentido tem o direito de fazer esta promessa. A ventura de estar amando é de tal natureza que estamos certos em rejeitar como intolerável a ideia de que, o acontecimento talvez seja transitório. De um só pulo ele transpôs a parede espessa do nosso “eu”; tornou altruísta o apetite em si, jogou para o alto a felicidade pessoal como uma trivialidade e plantou os interesses de outrem no centro de nosso ser. Espontaneamente e sem qualquer esforço cumprimos a lei (em relação a uma pessoa) de amar nosso próximo como a nós mesmos. Trata-se de uma imagem, uma antecipação, do que devemos tornar-nos para todos se o próprio Amor imperar em nós sem um rival. Existe até mesmo um preparo para isso. Deixar de amar novamente é - se posso inventar essa feia palavra - uma espécie de desredenção.
Eros é impelido a prometer o que Eros por si mesmo não pode cumprir. Será que vamos nos manter nesse estado de liberdade altruísta a vida inteira? Talvez nem mesmo uma semana. Entre os melhores amantes esta condição é intermitente. O velho “eu” logo mostra não estar tão morto corno parecia como acontece depois de uma conversão religiosa. Em qualquer dos casos ele pode achar-se momentaneamente inconsciente, mas logo se levantará; se não ficar de pé, pelo menos se porá de joelhos; se não rugir, pelo menos vai voltar aos seus resmungos mal-humorados ou seus queixumes. E Vênus escorregará de volta à simples sexualidade.
Esses lapsos não destruirão porém uma união entre duas pessoas “decentes e sensatas”. O casal cujo matrimônio correrá certamente um risco ou talvez venha a ser destruído é aquele que fez de Eros um ídolo. Pensaram que ele tinha o poder e a fidelidade de um deus. Esperavam que esse simples sentimento fizesse por eles tudo o que fosse necessário, e isso permanentemente. Quando essa expectativa não se realiza jogam a culpa sobre Eros ou, no geral, sobre os seus parceiros. Na verdade, porém, Eros, depois de ter feito sua promessa gigantesca e lhe mostrado vislumbres do que seria a sua realização, “fez a sua parte”. Como um padrinho ele faz os juramentos, mas somos nós que devemos cumpri-los.
Cabe-nos fazer as obras de Eros quando ele não se acha presente. Todos os bons amantes sabem disso, embora os que não forem refletidos ou articulados só poderão expressar essa ideia em algumas frases convencionais, tais como: “aceitar de boa mente o lado bom e o mau”, não “esperar demasiado”, ter “um pouco de senso comum”, e outras. Todos os bons amantes cristãos sabem que este programa, por mais modesto que ele soe, não poderá ser executado sem humildade, caridade e graça divinas; que ele é na verdade toda a vida cristã observada de um determinado ângulo.
Eros então, como os demais amores, mas fazendo mais impacto por causa de sua força, doçura, terror e elevado propósito, revela sua verdadeira posição. Ele não pode de si mesmo ser aquilo que deve ser se mantiver como Eros. Ele precisa de ajuda, portanto, precisa ser governado. O deus morre ou se transforma num demônio a não ser que obedeça a Deus. Seria melhor em tal caso que sempre morresse. Mas pode continuar vivendo, impiedosamente acorrentando dois atormentadores mútuos, cada um repleto do veneno do ódio no amor, cada um voraz para receber e implacavelmente recusando-se a dar, ciumento, suspeitoso, ressentido, lutando pelo domínio, determinado a ser livre sem permitir liberdade, vivendo de “cenas”. Leia Ana Karenina e não pense que tais coisas só acontecem na Rússia. A velha hipérbole de os amantes “comerem” um ao outro pode aproximar-se terrivelmente da verdade.
Quatro amores,
C.S. Lewis

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