"Esqueceu-se Deus de ser compassivo? Ou na sua ira encerrou ele as suas ternas misericórdias?" (Salmos 77. 9)Porventura esqueceu Deus de ser misericordioso? O profeta ainda continua debatendo em seu íntimo o mesmo tema. Seu objetivo, contudo, não é subverter sua fé, mas, antes, soerguê-la. Ele não formula esta pergunta como se o ponto a que se refere fosse uma questão duvidosa. É como se ele dissesse: Porventura Deus esqueceu de si mesmo? ou teria ele mudado sua natureza Porque ele não pode ser Deus a menos que seja misericordioso. De fato admito que ele não permanece inabalável como se possuísse um coração de aço. Entretanto, quanto mais violentamente era ele assaltado, mais firmemente se inclinava para o fato incontestável de que a bondade de Deus está tão inseparavelmente conectada a sua essência, que se torna sumariamente impossível que ele não seja misericordioso. Portanto, sempre que as dúvidas assaltem nossas mentes, assenhoreando-se delas com preocupações e oprimindo-as com angústias, aprendamos sempre a diligenciar-nos por obter uma resposta satisfatória a esta pergunta: Deus mudou sua natureza ao ponto de não mais ser misericordioso?
A última sentença: Ele encerrou ou restringiu sua misericórdia em sua ira? tem o mesmo teor. Era uma observação muito comum e notável entre os patriarcas que Deus é longânimo, tardio em irar-se, pronto a perdoar e fácil de ser achado. Foi deles que Habacuque extraiu a afirmação que faz em seu cântico [3.2]: “ Mesmo em sua ira ele se lembrará de sua misericórdia.” O profeta, pois, aqui chega à conclusão de que a disciplina que ele experimentou não impedia que Deus novamente se reconciliasse com ele e volvesse a sua costumeira maneira de outorgar-lhe bênçãos, visto que sua ira para com seu próprio povo dura apenas um momento. Sim, embora Deus manifeste os emblemas de sua ira, todavia não oculta por muito tempo seu terno amor para com aqueles a quem disciplina. Sua ira, é verdade, permanece continuamente sobre os réprobos; porém o profeta, considerando-se como um do número dos filhos de Deus, e falando de outros crentes genuínos, com razão fala da impossibilidade de o desprazer temporário de Deus interromper o curso de sua bondade e mercê.
João Calvino, O livro dos Salmos, volume 3
05-10-16
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