quarta-feira, 5 de outubro de 2016

Salmos 77:6

"De noite lembro-me do meu cântico; consulto com o meu coração, e examino o meu espírito" (Salmos: 77. 6).

De noite recordarei o meu cântico. Pela expressão, meu cântico , ele denota o exercício de ação de graças no qual se engajara durante o tempo de sua prosperidade. Não há remédio mais próprio para curar nossas dores, como acabo de observar, do que este; Satanás, porém, com frequência espertamente insinua em nossa mente os benefícios de Deus, para que cada senso da ausência deles faça em nossas mentes uma profunda ferida. Portanto, é muitíssimo provável que o profeta estivesse espicaçado por dores cruciantes ao comparar a alegria experimentada por ele em tempos passados com as calamidades que presentemente estava sofrendo. Ele menciona expressamente a noite, porque, quando então estamos sozinhos e privados da sociedade e presença de seres humanos, em nossa mente engendramos mais preocupações e pensamentos do que os experimentamos durante o dia. O que se acrescenta imediatamente a seguir, com respeito ao comungar com seu próprio coração , tem o mesmo objetivo. A solidão exerce a influência de levar os homens a retirar-se para os recessos de seu próprio universo mental, com o intuito de examinar se plenamente e falar a si mesmos livre e sinceramente, quando nenhuma criatura está por perto para, com sua presença, impor restrição.

A última sentença do versículo, e meu espírito com diligência examinará, admite uma dupla explicação. A palavra chaphas, para examinar com diligência, sendo do gênero masculino, e a palavra ruach, para espírito, às vezes sendo feminina, alguns comentaristas supõem que o nome de Deus deve estar implícito, e explicam a frase como se o salmista houvera dito: Não há nada, ó Senhor, tão oculto em meu coração que não tenhas sondado. E de Deus se diz, com a mais elevada propriedade, que examina o espírito do homem, a quem desperta de sua indolência ou torpor, e a quem examina por meio de agudas aflições. Então todos os lugares ocultos e recuados, por mais obscuros que sejam, são explorados, e as aflições, antes desconhecidas, são trazidas a lume. Entretanto, visto que o gênero do substantivo, no idioma hebraico, é ambíguo, outros mais plausivelmente traduzem: meu espírito tem examinado diligentemente. Sendo este o sentido mais geralmente aceito, e sendo, ao mesmo tempo, o mais natural, eu o adotei. Nesse debate, do qual o escritor inspirado faz menção, ele perscrutou as causas em virtude das quais ele era tão severamente afligido, e também das quais suas calamidades finalmente emanavam. Sem dúvida é altamente proveitoso meditar nestes temas, e o desígnio de Deus consiste em instigar-nos a fazer isso quando algum adversário nos pressiona. Não há nada mais perverso do que a estupidez dos que se tornam endurecidos sob os açoites de Deus. Simplesmente devemos manter-nos dentro dos devidos limites a fim de não sermos tragados por muitas aflições, e para que as profundezas insondáveis dos juízos divinos não nos submerjam ante nossa tentativa de examiná-los detidamente. O que o profeta tinha em mente é que quando ele buscou conforto em todas as direções, não pôde encontrar nenhum que amenizasse a amargura de suas tristezas.

“O verbo chaphas , significa uma investigação como aquela para a qual o homem, para fazê-la, se vê obrigado a despir-se. Ou, levantar as cobertas a fim de examinar dobra por dobra. Ou, em nossa fraseologia, não deixar pedra sem revirar. A Vulgata traduz assim: et scopebam spiritum meum. Como scopebam não é um termo latino puro, poderia provavelmente ter sido tomado do grego, scopeo, ‘olhar em volta, considerar atentamente’. Entretanto, ele não é usado por nenhum autor, exceto por Jerônimo, e por ele somente aqui e em Isaías 14.23: ‘e varrê-la-ei com vassoura de perdição’; Daí vermos que ele formou um verbo do substantivo scopa, uma escova ou vassoura varredora." Dr. Adam Clarke.

João Calvino, O livro dos Salmos, volume 3.
03/10/16

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